Foslevodopa (Vyalev) aprovada no Brasil: o que o estudo mostrou e como funciona

Postado em: 08/10/2026

Desde que a Anvisa aprovou a foslevodopa, comercializada como Vyalev, para a doença de Parkinson em estágios avançados, a pergunta que mais escuto no consultório é direta: esse é o remédio novo que pode servir para mim?

A aprovação amplia de forma relevante as opções para quem convive com períodos OFF durante várias horas do dia.

Para saber se ela se aplica a cada caso, é preciso entender três pontos: que lacuna do tratamento esse remédio tenta reduzir, em que estudo a aprovação se apoiou e como a bomba funciona no dia a dia.

No vídeo abaixo, explico os três com os gráficos do estudo. O texto resume o raciocínio, com as fontes.

Por que a levodopa em comprimido deixa de ser suficiente para alguns pacientes?

A levodopa em comprimido deixa de ser suficiente quando a absorção irregular pelo intestino passa a gerar picos e quedas no nível do remédio no sangue. No pico, surgem movimentos involuntários, as discinesias.

Na queda, os sintomas voltam antes da próxima dose, no chamado período OFF. É essa oscilação que limita o tratamento oral.

Nos primeiros anos da doença de Parkinson, a medicação oral costuma bastar. Depois de cinco a sete anos, a janela de efeito de cada dose encurta, e o paciente passa a alternar discinesia e OFF.

Detalho esse mecanismo no texto sobre flutuações motoras e o efeito que acaba antes da hora.

O racional da foslevodopa é tirar o intestino dessa equação. Ela é uma pró-droga, uma molécula que o organismo converte em levodopa depois de aplicada.

Associada à foscarbidopa, ela entra sob a pele por infusão contínua e mantém o nível da medicação mais estável. Evitar o pico ajuda a reduzir a discinesia; evitar o vale ajuda a reduzir o OFF.

O estudo que levou à aprovação do Vyalev mostrou benefício mensurável?

Sim. O estudo de fase 3 que embasou a aprovação do Vyalev (foslevodopa e foscarbidopa) comparou a infusão contínua com a levodopa oral durante 12 semanas.

O grupo da infusão ganhou cerca de 2,7 horas por dia em período ON sem discinesia incômoda, contra cerca de 1 hora no grupo dos comprimidos.

O desenho foi randomizado, duplo-cego e com controle ativo. Os 141 participantes recebiam a infusão verdadeira com comprimidos de placebo, ou comprimidos verdadeiros com infusão de placebo.

Assim, nem o paciente nem o pesquisador sabiam quem estava em cada grupo. Os dados estão no artigo original publicado na The Lancet Neurology em 2022.

Quem participou do estudo

Os critérios de inclusão são fundamentais para indicar a terapia. Entraram pessoas com doença de Parkinson em estágios avançados que somavam pelo menos 2,5 horas por dia em OFF.

Os participantes também usavam no mínimo 400 mg diários de levodopa ou equivalente e tinham cognição preservada, com 24 pontos ou mais no Miniexame do Estado Mental.

Esse é o perfil em que o benefício foi demonstrado, e a avaliação de quem pode ser candidato à foslevodopa passa por esses mesmos pontos.

O que os números mostram na prática

O tempo em OFF caiu cerca de 2,75 horas por dia no grupo da infusão, contra cerca de 1 hora no grupo oral.

Os dois grupos melhoraram porque ambos tiveram a medicação otimizada; a diferença entre eles é o efeito atribuído à infusão.

O remédio já é usado no Japão, em países da Europa e nos Estados Unidos, onde foi aprovado em 2024.

Nos dados de vida real, a redução do OFF tem sido em média ainda maior, porque fora de um estudo controlado há mais liberdade para ajustar a dose de cada paciente.

Como funciona a bomba de foslevodopa no dia a dia?

A bomba de foslevodopa lembra uma bomba de insulina: tem o tamanho de dois celulares empilhados e fica numa pochete ou por baixo da roupa.

O remédio líquido é aspirado do frasco com uma seringa, que vai encaixada na bomba. Dali, ele segue por um cateter fino até um ponto sob a pele da barriga.

A dose não sai de estimativa. Somo todos os remédios dopaminérgicos que o paciente toma, a chamada dose equivalente de levodopa, e calculo quanto isso representa em mililitros por hora de foslevodopa.

No dia combinado, o paciente suspende os comprimidos e inicia a infusão, em clínica ou hospital. Daí em diante, ajusto a dose: se ele está em OFF, aumento; se está com discinesia, reduzo.

A bomba tem três níveis de infusão que o próprio paciente pode alternar em casa, conforme a orientação médica: um para o dia a dia, um maior para dias de mais atividade e um menor para a noite.

Se o OFF aparecer em casa, dá para liberar uma dose extra, dentro do que foi programado.

O local da infusão é trocado, idealmente, todos os dias, com assepsia, girando em sentido horário ao redor do umbigo. O passo a passo do aparelho está no texto sobre a bomba de infusão subcutânea de 24 horas.

A foslevodopa pode causar efeitos colaterais?

Sim. A foslevodopa pode causar efeitos colaterais no local da infusão, como dor e infecção, e efeitos ligados à própria levodopa, como aumento da discinesia e de alucinações.

Por isso, o cuidado com a assepsia na troca do cateter precisa ser rigoroso, e a dose deve ser ajustada com atenção nas primeiras semanas.

O aumento de alucinações apareceu no próprio estudo da Lancet. Na prática, muitas vezes é preciso reduzir outros remédios dopaminérgicos que o paciente ainda usa.

A adaptação também varia: alguns pacientes preferem voltar à levodopa oral. Ainda assim, a experiência acumulada nos países onde o remédio já é usado tem sido positiva, desde que a dose seja bem ajustada.

A foslevodopa elimina os períodos OFF da doença de Parkinson?

A foslevodopa reduz de forma significativa o tempo em OFF, segundo vários estudos publicados, embora em geral não o elimine por completo.

A levodopa continua disputando com aminoácidos da alimentação a entrada no cérebro, e a doença de Parkinson tem mecanismos que não dependem de dopamina e não respondem à reposição.

A passagem do sangue para o cérebro acontece pela barreira hematoencefálica, onde a levodopa compete com aminoácidos de cadeia maior, vindos da proteína da dieta.

Por isso, a alimentação ainda interfere um pouco, bem menos do que na via oral. E, como Parkinson não é só dopamina, a foslevodopa é uma ferramenta entre outras, como a Estimulação Cerebral Profunda (DBS).

Quando procurar avaliação para terapias avançadas?

Vale procurar avaliação para terapias avançadas, como a foslevodopa, quando os períodos OFF passam a somar horas do dia, quando o efeito de cada dose de levodopa dura cada vez menos ou quando as discinesias atrapalham tarefas simples.

Nesses casos, esperar a próxima consulta de rotina significa conviver mais tempo com um ajuste que já não funciona.

É possível avaliar a indicação da foslevodopa por teleconsulta?

Sim, em boa parte. Por teleconsulta, ouço a história completa, reviso exames e medicações e observo, pela câmera, a marcha, a fala, a velocidade ao abrir e fechar as mãos e outros movimentos simples do exame neurológico. Isso já permite estimar se as flutuações justificam discutir uma terapia avançada.

A teleconsulta também serve para buscar uma segunda opinião sobre um diagnóstico ou uma conduta já recebidos, hábito comum nos Estados Unidos e cada vez mais frequente entre pacientes brasileiros.

O início da infusão, porém, é feito de forma presencial, em clínica ou hospital, com o ajuste de dose acompanhado de perto.

Perguntas frequentes sobre o Vyalev

Vyalev e foslevodopa são a mesma coisa?

Vyalev é o nome comercial do medicamento aprovado pela Anvisa, que combina foslevodopa e foscarbidopa em solução para infusão subcutânea contínua. Quando falo em foslevodopa neste texto, me refiro a esse tratamento.

A foslevodopa substitui o DBS?

Não necessariamente. As duas são terapias para estágios avançados da doença, com mecanismos e perfis de indicação diferentes. A escolha considera idade, cognição, condições clínicas e preferência do paciente, e é discutida caso a caso.

O Vyalev já tem cobertura por plano de saúde ou pelo SUS?

A aprovação da Anvisa autoriza a comercialização no país. Cobertura por plano de saúde e incorporação ao SUS seguem processos próprios, e o cenário pode mudar. Resumo esse ponto no texto sobre a aprovação da foslevodopa no Brasil.

Avaliação para foslevodopa com o Dr. Rubens Cury

Sou Rubens Gisbert Cury, neurologista com atuação em distúrbios do movimento e foco em doença de Parkinson (CRM/SP 131445, RQE 64840), livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP.

Atendo em Pinheiros, São Paulo, e também por teleconsulta para pacientes de outras cidades.

Veja como conduzo o tratamento da doença de Parkinson ou agende uma avaliação para terapias avançadas.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um neurologista.

Dr. Rubens Cury
Neurologista Especialista em Parkinson
Professor Livre-docente da Universidade de São Paulo
CRM-SP: 131.445
RQE: 64.840

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Dr. Rubens Cury Neurologista
*As imagens utilizadas neste site são meramente ilustrativas, provenientes de bancos de imagens, não representando pacientes reais.
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