Parkinson avançado sem cirurgia: alternativas modernas ao DBS
Postado em: 05/10/2026
“Já dá para pensar em cirurgia?” É a pergunta que mais volta ao consultório quando a doença de Parkinson chega a uma fase mais avançada e o efeito de cada dose de remédio passa a durar menos do que o esperado.
Antes de responder, costumo abrir outra conversa.
Este é um caso de parkinson avançado sem cirurgia, tratável com um recurso farmacológico mais recente, ou já há indicação real para a Estimulação Cerebral Profunda (DBS)?
Essa dúvida raramente nasce de curiosidade abstrata.
Ela costuma vir de quem já ajustou horário de remédio, já trocou marca de comprimido e ainda assim sente que o dia se organiza em torno do relógio da próxima dose.
É justamente nesse ponto da jornada que vale entender as opções que existem antes de qualquer indicação cirúrgica.
E entender o que de fato diferencia uma fase que ainda responde bem a ajustes de uma fase que já pede outra estratégia.
O que muda quando a doença de Parkinson chega a uma fase mais avançada
Nos primeiros anos após o diagnóstico, a levodopa costuma controlar bem o tremor, a rigidez e a lentidão.
Com o tempo, o efeito de cada dose passa a durar menos, e surgem os chamados períodos off, quando os sintomas voltam antes do horário previsto do remédio seguinte.
Na minha conduta, esse é o momento em que reavalio o esquema medicamentoso por inteiro antes de falar em qualquer procedimento.
Ajustar horários, trocar formulações e, quando indicado, introduzir uma terapia avançada não cirúrgica resolve boa parte dos casos que chegam ao consultório já com a ideia da cirurgia meio decidida de antemão.
Isso não significa adiar uma decisão necessária. Significa reconhecer que a fase avançada da doença de Parkinson não tem um único caminho terapêutico.
A cirurgia é uma entre outras ferramentas, não a única resposta possível quando a via oral começa a falhar.
Todo paciente em fase avançada precisa passar por uma cirurgia?
Parkinson avançado sem cirurgia é uma possibilidade real para parte dos pacientes que não respondem mais bem à levodopa em comprimido ao longo do dia inteiro.
Quando a via oral perde eficácia entre uma dose e outra, a infusão subcutânea contínua de foslevodopa pode reduzir os períodos off sem exigir um procedimento neurocirúrgico.
A Academia Brasileira de Neurologia recomenda que a escolha entre as terapias avançadas leve em conta a resposta prévia à levodopa, a idade, as comorbidades e a rotina de cada paciente.
É essa avaliação individual, não uma régua fixa, que determina se a cirurgia é o próximo passo ou se ainda há espaço para ajuste medicamentoso.
Para saber mais sobre a infusão subcutânea contínua de foslevodopa, assista ao meu novo vídeo no YouTube.
Como a foslevodopa atua nas flutuações motoras
A foslevodopa é uma pró-droga administrada por infusão subcutânea contínua, aplicada por uma bomba portátil que o próprio paciente ou cuidador programa.
Ao manter o nível do medicamento estável ao longo do dia, ela reduz a alternância abrupta entre os períodos on e off que marca essa fase da doença.
Já detalhei o que é a foslevodopa e como ela funciona em outro texto, para quem quiser o mecanismo com mais profundidade.
O sistema foi aprovado pela Anvisa em abril de 2026, e passou a ser uma opção concreta para quem já usa combinações complexas de comprimidos sem o controle desejado.
Na prática, costumo indicá-la a pacientes que ainda respondem à levodopa, mas sofrem com a curta duração de cada dose, não a quem já não responde ao medicamento de forma alguma.
A troca da via oral para a infusão contínua costuma ser feita de forma gradual, com ajuste da dose ao longo dos primeiros dias, sob acompanhamento próximo.
O paciente e o cuidador aprendem a trocar o cateter e reprogramar a bomba, o que exige alguma adaptação inicial, mas tende a se tornar rotina em poucas semanas.
Quando a infusão contínua é uma alternativa à Estimulação Cerebral Profunda
O DBS segue sendo a indicação mais consistente para tremor de difícil controle e para discinesias importantes em pacientes elegíveis à cirurgia.
A foslevodopa, por outro lado, entra em cena quando o paciente prefere evitar um procedimento neurocirúrgico, tem contraindicação a ele ou está numa fase da vida em que o risco cirúrgico pesa mais na decisão.
Trato a indicação de DBS e a infusão de foslevodopa como duas ferramentas do mesmo arsenal terapêutico, não como concorrentes.
A escolha depende do paciente que está na minha frente, não de uma hierarquia fixa entre as duas.
Idade avançada, comorbidades que aumentam o risco cirúrgico e a preferência declarada do próprio paciente por evitar uma cirurgia pesam a favor da via farmacológica.
Já um tremor de difícil controle mesmo com boa resposta prévia à levodopa, ou discinesias que já atrapalham tarefas do dia a dia, tendem a pesar a favor do DBS.
A foslevodopa substitui a necessidade de cirurgia para todo mundo?
A foslevodopa não elimina a indicação de DBS para quem já tem tremor grave ou discinesias incapacitantes: nesses casos, a cirurgia continua sendo a opção com maior chance de controle sustentado.
O que a infusão contínua oferece, de forma concreta, é uma alternativa não cirúrgica consistente para quem ainda não chegou a esse ponto da doença.
Quando vale reavaliar o tratamento com o neurologista?
Alguns sinais indicam que vale antecipar a consulta e reavaliar o esquema terapêutico como um todo:
- Períodos off que já somam duas ou três horas por dia, mesmo com o remédio em dia;
- Discinesias que atrapalham tarefas simples, como comer ou escrever;
- Sensação de que nenhum ajuste de horário ou dose resolve mais o quadro;
- Curiosidade sobre alternativas à cirurgia antes de qualquer decisão estar tomada.
Como a teleconsulta ajuda quem já recebeu um diagnóstico e quer uma segunda opinião
Boa parte dos pacientes que me procuram para discutir foslevodopa e DBS já tem o diagnóstico fechado em outro serviço e busca uma segunda opinião antes de decidir o próximo passo.
Nos Estados Unidos, buscar uma segunda opinião sobre um diagnóstico já recebido é prática comum, e cada vez mais pacientes brasileiros adotam o mesmo hábito antes de uma decisão terapêutica importante.
A teleconsulta viabiliza essa segunda opinião sem exigir deslocamento até São Paulo. Pela câmera, dá para observar boa parte do exame neurológico que faria pessoalmente.
Peço para o paciente caminhar, falar, abrir e fechar a mão repetidamente e fazer outros movimentos simples que revelam rigidez, lentidão ou tremor.
Não substitui certos exames físicos que exigem contato direto, mas cobre grande parte da avaliação de rotina.
Perguntas frequentes sobre parkinson avançado sem cirurgia
A foslevodopa tem os mesmos efeitos colaterais da levodopa em comprimido?
Os efeitos costumam ser semelhantes aos da levodopa oral, já que o princípio ativo é o mesmo.
A via subcutânea pode causar reações no local da infusão, em geral leves e que tendem a melhorar com o ajuste do dispositivo.
Quem já fez a cirurgia de DBS ainda pode usar foslevodopa?
O uso combinado depende da resposta que a pessoa ainda tem à levodopa e do quanto o dispositivo de DBS já controla os sintomas.
Em alguns casos, a infusão contínua entra como complemento para sintomas que a estimulação isolada não resolve por completo. Essa avaliação é sempre feita caso a caso pelo neurologista responsável.
A foslevodopa está disponível pelo SUS?
A cobertura varia conforme o convênio ou o plano de cada paciente.
A disponibilidade pelo sistema público deve ser confirmada diretamente com a unidade de saúde, já que preços e condições de acesso não são tratados neste espaço.
Acompanhamento de fases avançadas da doença de Parkinson com o Dr. Rubens Cury
Sou Rubens Gisbert Cury, neurologista com atuação em distúrbios do movimento e foco em doença de Parkinson (CRM/SP 131445, RQE 64840).
Atendo em Pinheiros, São Paulo, e também por telemedicina para pacientes de outras cidades.
Conheça como conduzo o tratamento da doença de Parkinson ou converse com a equipe sobre uma avaliação.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um neurologista.
Dr. Rubens Cury
Neurologista Especialista em Parkinson
Professor Livre-docente da Universidade de São Paulo
CRM-SP: 131.445
RQE: 64.840
Médico Neurologista especialista em doença de Parkinson, Tremor Essencial, Distonia, e Estimulação
Cerebral Profunda (DBS, deep brain stimulation). Possui doutorado em Neurologia pela USP, pós-doutorado em
Neurologia pela USP e Universidade de Grenoble, na França, e é Professor Livre-Docente pela USP.
Registro
CRM-SP 131445 | RQE 64840