Estudo de células-tronco para o tratamento da doença de Parkinson
Postado em: 08/01/2026

Você já ouviu falar sobre o uso de células-tronco no tratamento da doença de Parkinson? Essa é uma alternativa que vem sendo estudada, com pesquisas recentes demonstrando avanços.
No conteúdo de hoje você vai entender o que esses estudos realmente mostram, o que pesquisas anteriores revelaram, quais avanços ocorreram e como funciona o procedimento utilizado nos ensaios clínicos. Também vamos falar sobre benefícios observados, limitações atuais e o que ainda precisa ser investigado antes que essa terapia se torne parte da prática clínica.
Continue a leitura para conferir!
O que são células-tronco e por que elas são estudadas no Parkinson?
As células-tronco são células especiais que têm a capacidade de se transformar em vários tipos de células do corpo – como células do fígado, da pele ou do cérebro.
Elas estão no centro de muitas pesquisas em regeneração celular, justamente porque podem, em teoria, “substituir” células que foram perdidas em algumas doenças.
Na doença de Parkinson, o problema principal é a perda de neurônios que produzem dopamina em uma região chamada substância negra.
A dopamina é um neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos. Quando essas células morrem, surgem sintomas como tremores, lentidão para iniciar movimentos, rigidez e alterações da marcha.
A ideia por trás do uso de células-tronco é a seguinte: se conseguirmos transformar células-tronco em neurônios produtores de dopamina e implantá-las na região correta do cérebro, poderíamos, em teoria, repor parte das células perdidas e melhorar os sintomas motores.
Hoje, uma das principais linhas de pesquisa envolve células chamadas iPS (células-tronco pluripotentes induzidas): células adultas reprogramadas em laboratório para voltarem a um “estado de fábrica” e, depois, serem guiadas a se tornarem neurônios dopaminérgicos.
Essa é uma estratégia elegante do ponto de vista biológico, mas também complexa e delicada, principalmente por envolver o cérebro e o risco de crescimento celular desordenado.
O que os estudos anteriores mostraram?
Antes das pesquisas com iPS, foram realizados estudos usando tecido fetal do cérebro para extrair e transplantar neurônios dopaminérgicos.
Alguns desses pacientes tiveram melhora dos sintomas por anos, mostrando que a ideia de “repor” neurônios fazia sentido. Porém, surgiram problemas importantes, como:
- Dificuldade ética e prática de obter tecido fetal;
- Variação grande nos resultados;
- Em alguns casos, crescimento desordenado das células implantadas;
- Aparecimento de discinesias (movimentos involuntários) que não respondiam bem à medicação.
Discinesias são movimentos involuntários, muitas vezes bruscos, que podem acometer braços, pernas, tronco ou rosto, atrapalhando o dia a dia.
Essas complicações trouxeram ceticismo por algum tempo e mostraram que, embora a teoria fosse promissora, a prática precisava ser aperfeiçoada.
Era necessário encontrar fontes de células mais seguras, com melhor controle do tipo celular produzido e menor risco de crescimento anormal.
Foi nesse contexto que as células iPS ganharam protagonismo: elas permitem produzir, em grande quantidade, neurônios dopaminérgicos em laboratório, com controle rigoroso de qualidade e menor risco ético em comparação ao uso de tecido fetal.
O estudo japonês de Kyoto: o que há de novo em 2025?
Um dos estudos mais comentados atualmente é o da Universidade de Kyoto, no Japão. Desde 2018, a equipe liderada pelo professor Jun Takahashi vem conduzindo um ensaio clínico com células-tronco iPS em pacientes com doença de Parkinson.
Em 2025, foram divulgados resultados importantes:
- Sete pacientes, entre 50 e 69 anos, com doença de Parkinson e pelo menos cinco anos de sintomas, foram submetidos ao transplante de neurônios dopaminérgicos derivados de iPS;
- As cirurgias foram realizadas de forma bilateral (dos dois lados), em uma região chamada putâmen, alvo clássico para reposição dopaminérgica;
- Os pacientes foram acompanhados por cerca de dois anos, com exames clínicos e de imagem.
Os principais pontos observados foram:
- Não houve crescimento anormal das células implantadas, nem sinais de tumor nas imagens;
- Não foram descritos efeitos colaterais graves associados diretamente ao transplante;
- Em vários pacientes, houve melhora dos sintomas motores em escalas neurológicas padronizadas;
- Exames de PET mostraram aumento da captação de dopamina na região onde as células foram implantadas, sugerindo que as novas células estavam produzindo dopamina de fato.
É verdade que o número de pacientes (sete) parece pequeno, mas, para esse tipo de pesquisa – que exige cirurgia intracraniana, acompanhamento intensivo e tecnologia de ponta –, trata-se de um passo muito significativo.
Ainda assim, os próprios autores reforçam: são resultados iniciais, que precisam ser confirmados em estudos com mais pacientes e seguimento mais longo.
Quais os benefícios observados e limitações atuais da terapia com células-tronco?
A seguir, vamos comentar os principais benefícios observados em pacientes que participaram dos estudos, assim como as limitações encontradas até o momento. Confira!
O que os estudos sugerem de benefício
Em uma parte dos pacientes estudados em Kyoto, houve melhora clínica dos sintomas motores, medida por escalas como a MDS-UPDRS (padrão internacional de avaliação da doença de Parkinson).
Houve evidência, nos exames de imagem, de que as células implantadas continuavam produzindo dopamina após dois anos.
Até o momento, não foram observados tumores ou crescimento desordenado das células implantadas.
Esses resultados mostram que a terapia tem potencial real e que a tecnologia atual permite um controle de segurança muito maior do que nos primeiros estudos com tecido fetal.
Limitações e pontos de atenção
Por outro lado, é fundamental reconhecer as limitações:
- O número de pacientes ainda é pequeno (sete no estudo de Kyoto).
- O acompanhamento, embora já razoável, ainda não permite saber exatamente como será o comportamento dessas células ao longo de muitos anos.
- Os pacientes continuam em uso de medicação; ou seja, o transplante não substitui completamente os tratamentos atuais.
- Em alguns casos, houve ajustes de dose por flutuações ou discinesias, o que mostra que a terapia não é “perfeita” nem isenta de desafios.
Além disso, é importante destacar: hoje, o uso de células-tronco para doença de Parkinson é um tratamento experimental, restrito a estudos clínicos em centros específicos do mundo.
No Brasil, não há, até o momento, terapia aprovada com células-tronco para Parkinson na prática clínica.

Perguntas frequentes sobre o uso de células-tronco no tratamento do Parkinson
Nas questões a seguir, vamos responder às principais dúvidas de pacientes quando escutam falar sobre células-tronco no Parkinson. Confira!
O tratamento com células-tronco já está disponível no Brasil?
Não. Até o momento, não existe tratamento com células-tronco para doença de Parkinson aprovado para uso rotineiro no Brasil. O que há são estudos clínicos em andamento em alguns países, como Japão e Estados Unidos, em centros de pesquisa altamente especializados.
Quais são os critérios para participar de estudos clínicos com células-tronco?
Os critérios variam conforme o estudo, mas, em geral, incluem diagnóstico confirmado de doença de Parkinson, faixa etária específica (no estudo de Kyoto, por exemplo, 50 a 69 anos), tempo mínimo de doença, ausência de demência avançada ou doenças graves descompensadas e residência e cobertura de saúde compatíveis com o país onde o estudo é realizado (no caso de Kyoto, os estudos são voltados a pacientes que vivem no Japão). A seleção é feita com muito rigor, justamente por se tratar de um tratamento experimental.
Existe risco de rejeição ou efeitos colaterais a longo prazo?
Sim, esses riscos existem e são um dos principais motivos pelos quais os estudos são conduzidos com tanto cuidado. Para reduzir a chance de rejeição, muitos protocolos utilizam imunossupressores, como o tacrolimus, por um período após o transplante.
Estudos recentes sugerem que, nos pacientes acompanhados até agora, não foram observadas reações imunológicas significativas ou crescimento tumoral nas células implantadas. Ainda assim, é cedo para afirmar como será a segurança dessa abordagem em prazos mais longos ou em grupos maiores de pacientes.
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Conclusão
É importante olhar para esses avanços com entusiasmo, mas também com serenidade. Estamos diante de pesquisas promissoras, porém iniciais, com poucos participantes e acompanhamento ainda curto. Mesmo assim, cada passo revela um caminho possível — um caminho que a ciência vem construindo com cuidado, responsabilidade e rigor.
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Médico Neurologista especialista em doença de Parkinson, Tremor Essencial, Distonia, e Estimulação
Cerebral Profunda (DBS, deep brain stimulation). Possui doutorado em Neurologia pela USP, pós-doutorado em
Neurologia pela USP e Universidade de Grenoble, na França, e é Professor Livre-Docente pela USP.
Registro
CRM-SP 131445 | RQE 64840