{"id":864,"date":"2022-05-18T16:26:39","date_gmt":"2022-05-18T19:26:39","guid":{"rendered":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/?p=864"},"modified":"2022-12-02T12:58:46","modified_gmt":"2022-12-02T15:58:46","slug":"os-implantes-que-traduzem-neuronios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/os-implantes-que-traduzem-neuronios\/","title":{"rendered":"Os implantes que traduzem neur\u00f4nios"},"content":{"rendered":"\r\n<p>O engenheiro eletricista aposentado Ant\u00f4nio Carlos Medeiros, de 65 anos, n\u00e3o se incomoda em ter dois eletrodos encravados na parte mais profunda de seu c\u00e9rebro. Tamb\u00e9m n\u00e3o lhe importuna a corrente el\u00e9trica que contorna seu cr\u00e2nio e pesco\u00e7o. O pequeno gerador implantado embaixo da pele, como um marca-passo, j\u00e1 faz praticamente parte de seu corpo. \u201cNo come\u00e7o eu estranhava, agora at\u00e9 durmo por cima\u201d, diz ele, mostrando a protuber\u00e2ncia um pouco acima do peito direito, causada pela pequena bateria ali instalada. A vida voltou ao normal para Medeiros \u2013 mas ele confessa que \u00e0s vezes se sente um pouco \u201cel\u00e9trico\u201d, sem se esquivar do trocadilho.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>H\u00e1 sete anos, Medeiros descobriu que tinha <a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/tratamentos\/doenca-de-parkinson\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/tratamentos\/doenca-de-parkinson\">Parkinson<\/a>, uma doen\u00e7a neurol\u00f3gica que afeta os movimentos corporais e causa tremores, rigidez muscular e altera\u00e7\u00f5es na fala. No in\u00edcio, evitava tocar no assunto e escondia os sintomas. Mas aos poucos eles foram escalando. Os leves tremores e movimentos involunt\u00e1rios nas m\u00e3os vieram primeiro, depois a rigidez das pernas e do rosto. Medeiros come\u00e7ou a mancar e andava aos solavancos, com o ombro direito projetado para a frente. \u201cEu n\u00e3o conseguia mais falar palavras longas, sa\u00eda tudo embolado\u201d, lembra. Se ficasse muito tempo de p\u00e9, logo sentia as pernas formigarem. Medeiros tomava a medica\u00e7\u00e3o padr\u00e3o para a doen\u00e7a, mas pouco adiantava. \u201cO rem\u00e9dio \u00e9 como se fosse uma corrente alternada\u201d, explica ele. \u201cEm poucos minutos atinge o pico do efeito e voc\u00ea fica bem. Mas depois vai caindo e caindo, como uma onda. E os problemas para se movimentar voltam.\u201d\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Foi quando seu neurologista comentou sobre outra possibilidade para tratar os sintomas: uma cirurgia que parecia a descri\u00e7\u00e3o de uma cena de filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Na estimula\u00e7\u00e3o cerebral profunda, ou DBS (<em>Deep brain stimulation<\/em>, em ingl\u00eas), os cirurgi\u00f5es iriam furar o cr\u00e2nio de Medeiros e enviar uma corrente el\u00e9trica para estimular o n\u00facleo de seu c\u00e9rebro, na regi\u00e3o afetada pelo Parkinson, trabalho que, numa pessoa saud\u00e1vel, \u00e9 feito pelos neur\u00f4nios. Ele topou na hora. \u201cEu tinha que melhorar, n\u00e3o podia ficar do jeito que estava. Eu sou jovem, n\u00e3o podia me render \u00e0 doen\u00e7a\u201d, diz Medeiros. Em junho de 2021, pegou um avi\u00e3o de S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o, onde mora com a esposa, e viajou para S\u00e3o Paulo atr\u00e1s da cirurgia. Depois de cinco meses de consultas, exames e acompanhamento com o neurologista, ele foi autorizado a realizar o procedimento, em novembro do ano passado.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A cirurgia come\u00e7ou por volta das 7 horas da manh\u00e3. Ainda consciente, Medeiros foi posicionado na maca e sua cabe\u00e7a ficou envolvida por um halo cir\u00fargico, que o manteve im\u00f3vel durante todo o processo. Uma m\u00e1quina de resson\u00e2ncia indicaria a posi\u00e7\u00e3o exata dos cortes. Primeiro, os neurocirurgi\u00f5es realizaram dois furos do tamanho de uma moeda de 50 centavos em seu cr\u00e2nio \u2013 um do lado esquerdo e um do lado direito. Para encontrar o alvo exato da cirurgia em meio a toda aquela massa retorcida, os cirurgi\u00f5es come\u00e7aram introduzindo um eletrodo fin\u00edssimo no c\u00e9rebro de Medeiros. <em>\u201c\u00c9 como se voc\u00ea estivesse olhando a cidade de S\u00e3o Paulo do alto e seu alvo fosse o Parque Ibirapuera\u201d<\/em>, explica o neurologista <strong><a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Rubens Cury<\/a><\/strong>, que integrou a equipe m\u00e9dica. Pode ser que no processo de inser\u00e7\u00e3o o eletrodo se desloque alguns mil\u00edmetros, diz ele, como se ca\u00edsse numa rua transversal ao parque. Para evitar esse erro, os neurocirurgi\u00f5es precisam ter certeza que est\u00e3o atingindo precisamente o ponto certo do n\u00facleo cerebral. Num computador ao lado da mesa cir\u00fargica, Cury acompanhava a empreitada. Na tela surgiam linhas que subiam e desciam freneticamente, conforme o eletrodo-teste era inserido. Aquele era o desenho da atividade neural de Medeiros.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>O<\/strong>c\u00e9rebro comanda, registra, controla e organiza todos os aspectos da nossa vida \u2013 o que pensamos, o que sentimos, o que vemos e o que fazemos. A caixa-preta de Medeiros estava aberta numa tela de computador, apenas codificada em uma linguagem ex\u00f3tica. \u201cImagina que voc\u00ea est\u00e1 colocando um microfone numa arquibancada de futebol\u201d, sugere <a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Cury<\/a>. <em>\u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que o que a gente registra ali \u00e9 a conversa dos neur\u00f4nios, \u00e9 atividade el\u00e9trica.\u201d<\/em> De repente, um ru\u00eddo particular, que vibrava numa frequ\u00eancia espec\u00edfica, interrompeu o sil\u00eancio da sala de cirurgia. Soava como se algu\u00e9m esfregasse um pl\u00e1stico-bolha. Um expectador inexperiente talvez n\u00e3o conseguisse reconhec\u00ea-lo, mas, aos ouvidos apurados de Cury, o som era inequ\u00edvoco: eles haviam encontrado o alvo no n\u00facleo cerebral. Cada neur\u00f4nio tem uma assinatura eletrofisiol\u00f3gica espec\u00edfica, que funciona como uma esp\u00e9cie de digital. O Parkinson \u00e9 uma doen\u00e7a estudada h\u00e1 muitos anos e, por isso, esses marcadores est\u00e3o bem descritos na literatura cient\u00edfica. Os m\u00e9dicos estavam prontos para inserir os eletrodos definitivos.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para seguir com a opera\u00e7\u00e3o, os neurocirurgi\u00f5es retiraram o eletrodo-teste e come\u00e7aram a inserir os dois eletrodos permanentes, que t\u00eam a espessura de uma carga de caneta. O engenheiro Ant\u00f4nio Carlos Medeiros estava acordado e consciente a essa altura da cirurgia (por mais contraintuitivo que pare\u00e7a, o c\u00e9rebro n\u00e3o tem receptores para sensa\u00e7\u00f5es dolorosas, o que significa que os humanos n\u00e3o sentem dor neste \u00f3rg\u00e3o). O neurologista, ent\u00e3o, ligou os eletrodos a uma fonte de energia e come\u00e7ou a test\u00e1-los, modulando a corrente el\u00e9trica enviada ao c\u00e9rebro do paciente. Ainda na mesa de cirurgia, Medeiros levantou os bra\u00e7os e as pernas. Estava livre dos tremores, n\u00e3o sentia nenhum formigamento, nem cansa\u00e7o muscular. O m\u00e9dico pediu que ele fizesse um movimento de pin\u00e7a com os dedos. A tarefa, que tornara-se custosa por causa do Parkinson, de repente voltou a ser simples. <em>\u201cParecia m\u00e1gica\u201d<\/em>, ele lembra. Naquele momento, com os eletrodos ligados, o engenheiro conseguiu fazer o que h\u00e1 muito tempo a rigidez facial lhe havia impedido: ele sorriu.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Depois de uma r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o, Medeiros voltou ao Maranh\u00e3o. Neste primeiro ano, s\u00f3 precisa ir a S\u00e3o Paulo de tr\u00eas em tr\u00eas meses para fazer o acompanhamento com o neurologista <strong><a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Rubens Cury<\/a><\/strong>. A corrente el\u00e9trica \u00e9 modulada, a depender da gravidade dos sintomas e da necessidade de mais estimula\u00e7\u00e3o. Esse tipo de cirurgia \u2013 com n\u00edveis de tecnologia diferentes \u2013 j\u00e1 \u00e9 feita h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas no mundo e desde 2008 \u00e9 oferecida pelo SUS. De l\u00e1 para c\u00e1, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade j\u00e1 contabilizou 591 cirurgias para tratamento de Parkinson com estimula\u00e7\u00e3o cerebral, como a realizada no engenheiro Ant\u00f4nio Medeiros. Seu procedimento foi feito pelo plano de sa\u00fade em uma cl\u00ednica particular. Independente de onde a cirurgia \u00e9 realizada, em todos os casos os pacientes recebem o est\u00edmulo el\u00e9trico de forma cont\u00ednua, 24 horas por dia, todos os dias. Medeiros, por exemplo, s\u00f3 pode aumentar ou diminuir a corrente el\u00e9trica durante as consultas peri\u00f3dicas, em que o neurologista avalia se a estimula\u00e7\u00e3o programada ainda \u00e9 suficiente para controlar os sintomas do Parkinson. Mas agora os pesquisadores est\u00e3o mais ambiciosos: querem deixar para tr\u00e1s a modula\u00e7\u00e3o cerebral manual e inaugurar em definitivo a era da interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>\u201cAs pessoas n\u00e3o t\u00eam uma vida regular: os sintomas mudam [de intensidade] entre os dias \u2013 ou at\u00e9 dentro do mesmo dia\u201d<\/em>, explica o neurologista <a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Rubens Cury<\/a>, professor da USP e coordenador do ambulat\u00f3rio de DBS do Hospital das Cl\u00ednicas da universidade, o maior polo de pesquisa em DBS da Am\u00e9rica Latina. <em>\u201cE se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos uma estimula\u00e7\u00e3o que se adapta ao estado da pessoa em tempo real? Seria lindo\u201d<\/em>, diz ele, sem esconder o fasc\u00ednio pelo tema. Isso significa que se o paciente estiver com o corpo mais r\u00edgido ou tremendo mais, a estimula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica aumentaria sozinha. Caso a pessoa esteja sob efeito da medica\u00e7\u00e3o, mais <em>\u201csolta\u201d<\/em>, a corrente tamb\u00e9m diminuiria automaticamente. <em>\u201cE isso se estende para pacientes com depress\u00e3o, ou transtorno obsessivo compulsivo\u201d<\/em>, diz <strong><a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Cury<\/a><\/strong>. Para isso, a bateria implantada no t\u00f3rax, al\u00e9m de mandar impulsos el\u00e9tricos para o c\u00e9rebro, precisaria entender que aquele paciente est\u00e1 tremendo mais ou que est\u00e1 passando por um per\u00edodo de crise depressiva. \u00c9 como se o computador pudesse vigiar a mente e saber o que est\u00e1 acontecendo com o corpo. \u201cA gente j\u00e1 consegue fazer isso, j\u00e1 temos capacidade de ensinar o computador a reconhecer sinais cerebrais do estado da pessoa\u201d, diz Rubens Cury. Parece fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas \u00e9 neurotecnologia.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para ensinar uma m\u00e1quina a entender o que se passa no c\u00e9rebro, os pesquisadores precisam estudar nossa atividade neural \u2013 aquela barulheira que apareceu durante a cirurgia do engenheiro Ant\u00f4nio Medeiros. O desafio \u00e9 traduzir a conversa de neur\u00f4nios, procurando padr\u00f5es em meio \u00e0 algazarra cerebral. No meio cient\u00edfico, essa atividade \u00e9 chamada de decodifica\u00e7\u00e3o. \u201cSe eu colocar eletrodos superficiais na sua cabe\u00e7a [<em>como num eletroencefalograma<\/em>] e pedir para voc\u00ea abrir e fechar a m\u00e3o mil vezes, eu posso olhar para a atividade dos seus neur\u00f4nios e encontrar um padr\u00e3o, um \u2018barulho\u2019 que se repete quando voc\u00ea faz isso\u201d, explica Cury. Depois, os pesquisadores enviam essa informa\u00e7\u00e3o para o computador e um algoritmo matem\u00e1tico come\u00e7a treinar a m\u00e1quina, basicamente ensinando a ela que toda vez que aquela certa atividade neural for registrada, significa que algu\u00e9m est\u00e1 tentando abrir e fechar a m\u00e3o. A teoria \u00e9 simples, mas essa opera\u00e7\u00e3o pode durar meses ou at\u00e9 anos. Ainda assim, o campo da interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina est\u00e1 avan\u00e7ando numa velocidade avassaladora.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em mar\u00e7o deste ano, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-022-28859-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo\u00a0<\/a>liderado por pesquisadores da Universidade de T\u00fcbingen, na Alemanha, mostrou como, pela primeira vez, um implante cerebral permitiu que uma pessoa com paralisia completa expressasse seus pensamentos. O participante da pesquisa, um homem de 32 anos com esclerose lateral amiotr\u00f3fica (ELA), n\u00e3o conseguia mexer um \u00fanico m\u00fasculo do corpo e n\u00e3o era sequer capaz de mover os olhos. Recebeu dois conjuntos de eletrodos na parte do c\u00e9rebro que controla os movimentos. Depois de alguns esfor\u00e7os malsucedidos, o paciente conseguiu ajustar seus sinais cerebrais e indicar respostas de \u201csim\u201d e \u201cn\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Usando apenas o pensamento, ele p\u00f4de escolher primeiro um grupo de letras e, em seguida, letras individuais dispostas num computador. Em poucos meses, ele produziu suas primeiras frases intelig\u00edveis \u2013 geralmente direcionadas aos cuidadores, para que o reposicionassem na cama ou trocassem sua roupa de dormir. Com o passar do tempo, conforme a opera\u00e7\u00e3o se tornava mais f\u00e1cil, o paciente formulou dezenas de frases. \u201cSopa goulash e sopa de ervilha doce\u201d, disparou ele. \u201cEu gostaria de ouvir o \u00e1lbum do Tool alto\u201d, pediu certa vez. No dia 251 do experimento, ele interagiu com seu filho de 4 anos. \u201cEu amo meu filho legal\u201d, disse, antes de perguntar se o rapaz gostaria de assistir a um filme do Robin Hood com ele.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esse tipo de tecnologia tamb\u00e9m faz com que seja poss\u00edvel mover objetos mec\u00e2nicos sem toc\u00e1-los, usando s\u00f3 o pensamento. Pesquisadores de uma universidade em Grenoble, na Fran\u00e7a, registraram o feito num v\u00eddeo que parece retirado do filme\u00a0<em>Matrix<\/em>. Nele, um paciente im\u00f3vel, rodeado por fios e telas, consegue guiar uma cadeira de rodas motorizada \u00e0 dist\u00e2ncia, fazendo com que ela siga em frente, vire \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda \u2013 tudo isso pensando nesses movimentos. \u201cA m\u00e1quina aprendeu quais sinais cerebrais significam \u2018querer virar \u00e0 esquerda\u2019 e executa isso\u201d, explica Cury, que fez p\u00f3s-doutorado na cidade francesa. A mesma ideia \u00e9 replicada em experimentos com bra\u00e7os e pernas rob\u00f3ticos, em pessoas que j\u00e1 n\u00e3o movem os membros. S\u00e3o pacientes que perderam a liga\u00e7\u00e3o entre o c\u00f3rtex motor e os m\u00fasculos, mas ainda t\u00eam a cogni\u00e7\u00e3o intacta \u2013 por isso, apenas se imaginar em movimento j\u00e1 \u00e9 suficiente.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em entrevista recente \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2021\/12\/06\/the-science-of-mind-reading\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">revista\u00a0<em>The New Yorker<\/em><\/a>, o neurocientista Adrian Owen, que estuda interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina na Universidade Western, no Canad\u00e1, subiu o sarrafo das expectativas sobre a neurotecnologia. \u201cN\u00e3o tenho d\u00favidas de que, em algum momento, seremos capazes de ler mentes. As pessoas ser\u00e3o capazes de articular \u2018Meu nome \u00e9 Adrian, e eu sou brit\u00e2nico\u2019, e n\u00f3s poderemos decodificar isso em seus c\u00e9rebros\u201d, vislumbra ele. Owen acredita que isso ocorrer\u00e1 num futuro distante, daqui a duas d\u00e9cadas, no m\u00ednimo. Ainda precisamos de tecnologia \u2013 e tempo \u2013 para decodificar um pensamento completo (por exemplo, uma frase inteira), em vez de responder apenas \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d para escolher letras em um teclado. Mas a proposta, por mais absurda que pare\u00e7a, n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o longe da realidade. Afinal, os pensamentos, por mais abstratas que sejam suas defini\u00e7\u00f5es, s\u00e3o formados por sinais el\u00e9tricos trocados entre neur\u00f4nios. A intelig\u00eancia artificial j\u00e1 transformou a forma como os cientistas leem os dados neurais. Agora eles querem mais.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outros pesquisadores, por\u00e9m, s\u00e3o c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o aos limites da tecnologia. \u201cEssa defini\u00e7\u00e3o de ler pensamento \u00e9 muito gen\u00e9rica. N\u00f3s pensamos muita coisa ao mesmo tempo\u201d, diz Lucas Trambaiolli, que pesquisa\u00a0<em>neurofeedback\u00a0<\/em>na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Basta imaginar uma pessoa multitarefas, que dirige enquanto conversa com algu\u00e9m e, ao mesmo tempo, tenta se lembrar se trancou a porta de casa. \u201cLer tudo isso em tempo real? Estamos longe disso. Para falar a verdade, a gente nem entende como tudo isso funciona ainda\u201d, completa Trambaiolli. A ci\u00eancia sabe que partes do c\u00e9rebro est\u00e3o relacionadas a aspectos diferentes da vida \u2013 existem redes de controle motor, de aten\u00e7\u00e3o, de processamento visual, do campo afetivo etc. Mas ainda n\u00e3o sabemos exatamente qual o papel espec\u00edfico de cada neur\u00f4nio, nem como eles se conectam.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em 2005, pesquisadores ingleses estavam monitorando a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature03687\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">atividade neural<\/a>\u00a0de alguns volunt\u00e1rios quando notaram um fen\u00f4meno curioso. Toda vez que mostravam fotos da atriz norte-americana Jennifer Aniston, um neur\u00f4nio espec\u00edfico no c\u00e9rebro dos volunt\u00e1rios entrava em atividade, aumentando a gera\u00e7\u00e3o de impulsos nervosos. Quando a mesma pessoa recebia fotos de outras celebridades, como Tom Cruise ou Oprah Winfrey, a atividade el\u00e9trica ocorria em c\u00e9lulas totalmente diferentes. Al\u00e9m do neur\u00f4nio Jennifer Aniston \u2013 alcunha dada \u00e0 c\u00e9lula que abrilhantou o estudo \u2013, um ser humano tem, em m\u00e9dia, outros<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-cru-o-cozidoe-o-cerebro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00a086 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios<\/a>. Grande parte deles (e suas tarefas superespec\u00edficas) ainda s\u00e3o um mist\u00e9rio para a ci\u00eancia. Mas se um deles reage \u00e0 Jennifer Aniston, ent\u00e3o provavelmente h\u00e1 outros que reajam a diferentes ideias, emo\u00e7\u00f5es, conceitos e movimentos. \u00c9 esse tipo de informa\u00e7\u00e3o que vai ampliar o leque de aplica\u00e7\u00f5es da interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina. Para isso, os pesquisadores precisam antes decifrar o significado dessa quantidade absurda de sinais. A boa not\u00edcia \u00e9 que eles nunca estiveram t\u00e3o dedicados a essa tarefa.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201c<em>O que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 uma corrida mundial\u201d<\/em>, define <strong><a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Rubens Cury<\/a><\/strong>, da USP. \u201cTodos os grupos de neuromodula\u00e7\u00e3o est\u00e3o atr\u00e1s dos sinais eletrofisiol\u00f3gicos.\u201d Na corrida para decifrar o c\u00f3digo da mente est\u00e3o cientistas, universidades, tradicionais empresas do ramo,\u00a0<em>startups<\/em>\u00a0e bilion\u00e1rios. Um dos competidores \u00e9 a NextSense, uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wired.com\/story\/nextsense-wants-to-get-in-your-ears-and-watch-your-brain\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">startup<\/a>\u00a0que nasceu no Google e que promete vender fones de ouvido sem fio, capazes de melhorar a sa\u00fade do c\u00e9rebro enquanto coletam milhares de dados. A ideia \u00e9 que esses aparelhos substituam os eletrodos de eletroencefalograma \u2013 caros e desconfort\u00e1veis \u2013 e vasculhem o c\u00e9rebro em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre nosso humor, aten\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es no sono e per\u00edodos de depress\u00e3o. \u00c9 como um\u00a0<em>smartwatch,\u00a0<\/em>s\u00f3 que ainda\u00a0mais inteligente. A NextSense planeja enviar seu dispositivo para aprova\u00e7\u00e3o do FDA (a ag\u00eancia reguladora dos Estados Unidos) ainda neste ano, o que pode se tornar um divisor de \u00e1guas no campo da interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Al\u00e9m de milh\u00f5es de d\u00f3lares em financiamento, a\u00a0<em>startup\u00a0<\/em>j\u00e1 firmou parcerias com universidades e empresas farmac\u00eauticas para explorar os usos m\u00e9dicos de seus fones de ouvido. Espera-se que os fones da NextSense ajudem a avaliar a efic\u00e1cia de medica\u00e7\u00f5es para epilepsia, depress\u00e3o e outros problemas de sa\u00fade mental. \u201cO paciente n\u00e3o vai precisar dizer se est\u00e1 se sentindo bem ou mal, o c\u00e9rebro dele vai mostrar para o psiquiatra ou neurologista os efeitos do tratamento\u201d, explica Rubens Cury, coordenador de uma pesquisa no Hospital das Cl\u00ednicas que desenvolve essa mesma forma de an\u00e1lise para a doen\u00e7a de Parkinson. O bilion\u00e1rio Elon Musk \u2013 que j\u00e1 investiu em carros el\u00e9tricos, viagens espaciais e recentemente ensaiou a compra do Twitter \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 fundador de uma\u00a0<em>startup\u00a0<\/em>na \u00e1rea, a Neuralink. Com uma proposta ainda mais ambiciosa, sua empresa pretende implantar\u00a0<em>chips\u00a0<\/em>cerebrais para captar os sinais neurais de pacientes com problemas cognitivos e tratar uma s\u00e9rie de doen\u00e7as com estimula\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>As m\u00e1quinas atuais de interface c\u00e9rebro-m\u00e1quina n\u00e3o s\u00e3o r\u00e1pidas. Os experimentos com bra\u00e7os rob\u00f3ticos e teclados para comunica\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes demoram anos para ficarem prontos. Os especialistas preveem um salto tecnol\u00f3gico nos pr\u00f3ximos anos, gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de empresas que agora investem pesado em novas tecnologias. Isso n\u00e3o acontece ao acaso: a popula\u00e7\u00e3o mundial est\u00e1 envelhecendo mais, morrendo mais tarde e, consequentemente, ficando mais debilitada. Trata-se de um mercado gigantesco \u00e0 espera de uma solu\u00e7\u00e3o \u2013 e quem largar na frente ter\u00e1 vantagem. \u201cEssas\u00a0<em>startups\u00a0<\/em>t\u00eam dinheiro e pessoal trabalhando 100% do tempo no desenvolvimento de pesquisa\u201d, diz Lucas Trambaiolli, de Harvard. \u201cE al\u00e9m disso n\u00e3o est\u00e3o lidando com toda a burocracia e coisas que os acad\u00eamicos precisam lidar, que acabam tomando muito tempo.\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa corrida desenfreada, contudo, traz desafios \u00e9ticos. Os pesquisadores, quando fazem um estudo, precisam se submeter a um comit\u00ea de \u00e9tica e normalmente filtram o escopo do trabalho para n\u00e3o vasculhar conversas neurais que n\u00e3o trazem implica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro como isso vai funcionar no mercado das grandes empresas. <em>\u201cExiste invas\u00e3o maior de privacidade do que saber o que voc\u00ea est\u00e1 pensando?\u201d<\/em>, lembra o neurologista <strong><a href=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/rubenscury.com.br\/dr-rubens-cury\">Rubens Cury<\/a><\/strong>. \u201cHoje sabemos que isso \u00e9 usado para trazer benef\u00edcios. Mas se voc\u00ea olhar para o futuro, a coisa come\u00e7a a ficar louca.\u201d At\u00e9 os especialistas t\u00eam dificuldade de prever o que ser\u00e1 poss\u00edvel fazer com tanta informa\u00e7\u00e3o. Quando finalmente aprendermos a falar a l\u00edngua dos neur\u00f4nios, as possibilidades ser\u00e3o infinitas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong><a href=\"Fonte: \">Fonte: <\/a><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/os-implantes-que-traduzem-neuronios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/os-implantes-que-traduzem-neuronios\/\">Entrevista realizada para Revista Piau\u00ed em 18 maio 2022<\/a><\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 10<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span>O engenheiro eletricista aposentado Ant\u00f4nio Carlos Medeiros, de 65 anos, n\u00e3o se incomoda em ter dois eletrodos encravados na parte mais profunda de seu c\u00e9rebro. Tamb\u00e9m n\u00e3o lhe importuna a corrente el\u00e9trica que contorna seu cr\u00e2nio e pesco\u00e7o. O pequeno gerador implantado embaixo da pele, como um marca-passo, j\u00e1 faz praticamente parte de seu corpo. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":865,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-doenca-de-parkinson"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=864"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":945,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864\/revisions\/945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}