{"id":351,"date":"2021-09-03T17:39:42","date_gmt":"2021-09-03T20:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/?p=351"},"modified":"2022-12-02T13:03:09","modified_gmt":"2022-12-02T16:03:09","slug":"tive-diagnostico-parkinson-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubenscury.com.br\/blog\/tive-diagnostico-parkinson-e-agora\/","title":{"rendered":"Tive o diagn\u00f3stico de doen\u00e7a de Parkinson. E agora?"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Pai, o que h\u00e1 de errado com a sua m\u00e3o?&#8221; O filho comentou, na mesa de jantar.&nbsp; \u201cNada\u201d, ele respondeu, \u201cdeve ser um tremor da idade, ou estresse\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela semana, a fam\u00edlia resolveu lev\u00e1-lo ao m\u00e9dico. Ali\u00e1s, ele tinha 56 anos, e n\u00e3o era comum as pessoas tremerem nessa idade, pensavam a esposa e o filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ele entrava no consult\u00f3rio, o neurologista disse: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 com Parkinson.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou surpreso, est\u00e1tico, im\u00f3vel. O m\u00e9dico continuou: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o consegue sentir o cheiro das coisas, sua m\u00e3o treme, voc\u00ea est\u00e1 mais lento e seu rosto mais s\u00e9rio. \u00c9 isso, voc\u00ea tem Parkinson\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E de fato ele tinha. O seu mundo desabou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que fazer da minha vida?\u201d<br>\u201cComo vai ser meu futuro?&#8221;<br>&#8220;Vou ficar dependente da minha fam\u00edlia?\u201d<br>\u201cE meus filhos, e meus futuros netos?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, que n\u00e3o tem cura, como a doen\u00e7a de Parkinson, tem um impacto emocional, social e familiar enorme. De um dia para o outro sua vida muda, assim como a sua forma de encarar as situa\u00e7\u00f5es, o seu olhar para o futuro, o seu olhar para o passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, pretendo aqui abordar alguns aspectos desse momento dif\u00edcil para muitas pessoas que passaram ou passar\u00e3o pelo cen\u00e1rio acima, mas sob um olhar leve.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9, de fato, a doen\u00e7a de Parkinson?<\/h3>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada: n\u00e3o existe <strong>Mal de Parkinson<\/strong>. Esse termo foi extinto h\u00e1 muitos anos. \u00c9 Doen\u00e7a de Parkinson, em refer\u00eancia ao m\u00e9dico ingl\u00eas James Parkinson, que a descreveu em 1817. Mas pouco importa o nome, e sim, quais suas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Brevemente, ela \u00e9 causada por uma redu\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de dopamina no c\u00e9rebro, que \u00e9 uma mol\u00e9cula essencial para os nossos movimentos. Com essa redu\u00e7\u00e3o, a pessoa fica mais lenta, treme e tem dificuldade para fazer as atividades do dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O dep\u00f3sito anormal de uma prote\u00edna no c\u00e9rebro, chamada de alfa-sinucle\u00edna, leva a essa redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o da dopamina. <span style=\"color:#0a67d3\" class=\"has-inline-color\">Portanto, o que temos \u00e9 uma disfun\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o da dopamina.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o gosto do termo degenerativo. \u00c9 um termo antigo, em uma \u00e9poca em que n\u00e3o se conhecia ao certo as causas das doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A doen\u00e7a de Parkinson \u00e9 uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, causada pela perda progressiva da dopamina, resultante de um dep\u00f3sito anormal da prote\u00edna alfa-sinucle\u00edna. Ponto, \u00e9 isso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como tratamos? Repondo a dopamina, fazendo atividade f\u00edsica, e ajustando os rem\u00e9dios regularmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Desmistifique alguns conceitos<\/h3>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 porque algu\u00e9m que voc\u00ea conhece e tem Parkinson, que voc\u00ea vai achar que vai ficar igual. A doen\u00e7a \u00e9 heterog\u00eanea, diferente de uma pessoa para outra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que sua jornada ser\u00e1 f\u00e1cil. N\u00e3o \u00e9 isso. Mas n\u00e3o d\u00e1 para comparar a sua evolu\u00e7\u00e3o com a de outras pessoas. E claro, o tratamento \u00e9 s\u00e9rio, sistem\u00e1tico, h\u00e1 comprometimento do paciente em seguir as medidas passadas pelo seu m\u00e9dico de confian\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto: aquela imagem que temos de quem tem Parkinson: um senhor j\u00e1 de idade, fr\u00e1gil, tremendo, encurvado para frente, n\u00e3o \u00e9 verdade na maioria dos casos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais da metade dos pacientes acometidos pela doen\u00e7a t\u00eam entre 50 e 69 anos, est\u00e3o na fase ativa da vida. Uma parcela \u00e9 ainda mais jovem. Eles t\u00eam trabalho, contas a pagar, prazeres, sonhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vida de quem tem Parkinson vai seguir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com tratamento. Com dificuldades algumas vezes, \u00e9 verdade, mas vai seguir. O tratamento pode deixar a pessoa ativa, vigorosa, disposta. O luto inicial no diagn\u00f3stico \u00e9 compreens\u00edvel, \u00e9 esperado. Mas o caminho a ser seguido deve ser o de enfrentamento e conviv\u00eancia com a doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Porque hoje sabemos, e isso \u00e9 importante, que a pessoa n\u00e3o morre de Parkinson. Ela convive com ele. O tratamento das outras condi\u00e7\u00f5es, como press\u00e3o alta, diabetes, sedentarismo, \u00e9 fundamental, pois a maior causa de morte no mundo \u00e9 infarto, derrame e c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, muitos pacientes olham para tr\u00e1s, na \u00e9poca do diagn\u00f3stico (h\u00e1 alguns anos), e dizem: \u201c\u00c9 doutor, no final minha vida seguiu, estou caminhando, com f\u00e9, aceitando mais, dando mais valor \u00e0s coisas do dia a dia. Tocando o barco\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por mais forte que seja a ventania, por mais densa que seja a nuvem, depois do inverno, sempre vem a primavera.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Espiritualidade e F\u00e9&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<p>Espiritualidade \u00e9 diferente de religi\u00e3o. Religi\u00e3o se refere a aspectos interpessoais e institucionais que derivam de se ocupar de doutrinas, valores, tradi\u00e7\u00f5es e membros de um determinado grupo religioso. Devemos respeitar todas as religi\u00f5es, sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a espiritualidade refere-se a experi\u00eancias psicol\u00f3gicas da religiosidade relacionadas \u00e0 ideia individual de conex\u00e3o com algo transcendente. A espiritualidade \u00e9 manifesta por meio de emo\u00e7\u00f5es como rever\u00eancia, gratid\u00e3o, amor, compaix\u00e3o e perd\u00e3o. Portanto, de uma forma ou de outra, a espiritualidade est\u00e1 dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 evid\u00eancias cient\u00edficas de que quando enfrentamos nossos problemas (como uma doen\u00e7a) com espiritualidade, ou emo\u00e7\u00f5es positivas, a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a \u00e9 mais satisfat\u00f3ria. Ou seja, a progress\u00e3o da doen\u00e7a \u00e9 mais branda. As pessoas ficam melhores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos, espiritualidade \u00e9 produto da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e9 de que a doen\u00e7a vai ficar sob controle, de que novos tratamentos ir\u00e3o surgir, do poder da ci\u00eancia e das pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, \u00e9 natural termos emo\u00e7\u00f5es negativas, como medo ou raiva, que s\u00e3o inatas e de enorme import\u00e2ncia. Mas embora cruciais, elas s\u00e3o ben\u00e9ficas apenas no momento em que ocorrem. N\u00e3o devemos permanecer com elas. J\u00e1 as emo\u00e7\u00f5es positivas s\u00e3o mais expansivas e nos ajudam a ampliar e a construir.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Minha vida \u00e9 canto sem fim,<\/em><br><em>Al\u00e9m do mundano sofrer.<\/em><br><em>Ou\u00e7o o hino claro e distante<\/em><br><em>Que sa\u00fada o novo ser.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Temporal nenhum me abala<\/em><br><em>Enquanto \u00e0 rocha agarrar.<\/em><br><em>Se h\u00e1 amor no c\u00e9u e na Terra,<\/em><br><em>como deixar de cantar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Robert Lowry (1860)<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Esperan\u00e7a<\/h3>\n\n\n\n<p>Creio que um dos objetivos dos m\u00e9dicos seja acolher, confortar. Mas al\u00e9m disso, tamb\u00e9m regar esperan\u00e7as \u00e0s pessoas. O sofrimento equivale \u00e0 esperan\u00e7a aniquilada e \u00e9 mais do que dor: \u00e9 a perda do controle, o desespero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se a perda da esperan\u00e7a transforma dor em sofrimento, a volta da esperan\u00e7a transforma o sofrimento em dor toler\u00e1vel. O sofrimento \u00e9 a perda da autonomia; esperan\u00e7a \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o. O diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a como Parkinson \u00e9 seguida de sofrimento, mas a esperan\u00e7a pode ser restauradora. Tenha esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dancei numa sexta quando o c\u00e9u escureceu;<\/em><br><em>\u00c9 dif\u00edcil dan\u00e7ar quando o dem\u00f4nio \u00e9 seu;<\/em><br><em>Enterraram meu corpo, pensaram que eu morri,<\/em><br><em>Entretanto eu sou a dan\u00e7a e sobrevivi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Fui derrubado e me alcei ainda mais,<\/em><br><em>Pois sou a vida, que n\u00e3o morre jamais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sidney Carter (1963)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Artigo escrito pelo Dr. Rubens Gisbert Cury<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e9dico Neurologista especialista em doen\u00e7a de Parkinson, Tremor Essencial, Distonia, e Estimula\u00e7\u00e3o Cerebral Profunda (DBS, deep brain stimulation).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 4<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span>&#8220;Pai, o que h\u00e1 de errado com a sua m\u00e3o?&#8221; O filho comentou, na mesa de jantar.&nbsp; \u201cNada\u201d, ele respondeu, \u201cdeve ser um tremor da idade, ou estresse\u201d.&nbsp; Naquela semana, a fam\u00edlia resolveu lev\u00e1-lo ao m\u00e9dico. 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